Segunda-feira, Abril 16, 2012

Lost Weekend

Um dia é maior do que a soma
das suas horas, às vezes comporta
todos os invernos e as estações
assombradas
pelos prejuízos do prazer.

Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica?
A cidade não foi feita para as nossas
pretensões,
está apenas alastrada por dentro de nós,
crispação
de pedras e espinhos no laço desfeito
entre as veias.

Adiantamos o corpo aos rolamentos da
noite,
é a própria razão que nos ilumina os
atalhos
para o esquecimento. Um ano inteiro não
será suficiente
para tudo o que não nos acontece.
Rui Pires Cabral

Terça-feira, Abril 03, 2012

Útero

No momento sublime da minha raiva
Falo-te com a boca amarga e as mãos desfeitas,
Sufocada pelo tempo perdido.
Tu és como um nado-morto, um filho carregado num ventre amoroso, Expelido com sofrimento e sangue,
Nascido sem alma nem respiração.
Um ser de olhos vítreos e de cor indefinida, sem luz e sem pulso, uma estátua inerte manchada com o odor das minhas entranhas.
Tu e eu nas trevas, dois seres mortos á beira da vida.
Duas crias nascidas de uma mulher de seios efémeros e de coração estéril, mastigando o nome de um útero inútil.

Quarta-feira, Março 14, 2012

Crowds

Andaremos sempre de passagem
nessa vida a que fugiste
sem tu saberes sequer como são
as paisagens pálidas do meu franzir.
É uma dupla atrocidade
saber-te quente só com as mãos,
sentir-te e escrever-te
e inventar-me em chuvas incertas
onde andam mortas as multidões
adormecidas no meu sono
de tanto querer não te querer tanto.
Amar-me é suicídio, por mim nunca serias, mas és,
a força dinâmica de um contratempo.
Sob este vento as nuvens são pianos que falam de um de nós.
Escrevo o teu nome na areia
até que os dias acordem limpos.

W.D. Sevahc



Quinta-feira, Março 08, 2012

A erosão dos sentidos


Cerquei-me de angústia
sem dar um passo,
embrulhei-me num manto de cansaço
que me tortura e desgasta,
uma redoma de sentido de justiça
que me ensurdece,
que me cega e bloqueia de sentir
o que é certo.
Folheio gestos como se fossem
palavras prensadas num almanaque
anual,
dou-lhes pseudónimos obscuros
e escondo-os numa gaveta empenada
junto à cabeceira da cama,
quero esquecer que isso existe,
quero acreditar que a dor é um castigo
merecido e que a erosão que me rompe
as entranhas não passa de um truque vulgar.
Componho a mise-en-scène de memórias
sobre uma estante da sala e escrupulosamente
vou juntando os pedaços,
como um puzzle de arritmias mentais que
soluçam ao som de um metrónomo.
Vou recordando os silêncios e as mentiras
forjadas no corpo sem vontade de ceder,
quero respirá-las,
encher os pulmões de ar desse crude
e vomitá-las de uma só vez,
quero ser eu,
não tu,
não nós,
apenas eu,
uma ravina imponente onde o sol nasce
e se deita,
orgulhosamente erguida com bater das
ondas do mar.
Pedro Lima

Segunda-feira, Março 05, 2012

Há uma mulher a morrer sentada

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar
Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para
dentro
Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável
É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo
Sei que não posso chamá-la das margens
Daniel faria, in "Dos Líquidos"

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2012

Conta comigo sempre

Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota de sangue.
Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas vezes constelação e outras vezes
árvore, tantas vezes equilíbrio, outras tantas tempestade. A nossa memória é um
mistério, recordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo
distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.
O sonho é, e será sempre e apenas dos vivos, dos que mastigam o pão da dúvida e
da carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as
mãos com uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se aninha no
coração e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do
sofrimento. Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da
face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e
o dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo,
repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou. Sabes como me chamo.
Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora
decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar.
Caminharei a teu lado. Haverá decerto, algumas flores derrubadas, mas haverá
igualmente um sol limpo que interrogará as tuas mãos e te ajudará a encontrar,
entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, as mais sábias
e as mais livres.
Conta comigo sempre.

Joaquim Pessoa



Domingo, Fevereiro 05, 2012

Quarto aberto á escuridão

No quarto aberto á escuridão
o tempo divide-se em chuva e em pele.
O teu corpo lento descansa sobre a manta pequena,
as tuas mãos correndo como um rio que transborda,
as múltiplas chagas de fogo reflectidas nas janelas.
O amor abandonado na cama de ferro num sono profundo de
mentira.
Tu, elemento central deste quarto, perdido entre o jarro de
água na mesa-de-cabeceira
e o gato cinzento que se espreguiça,
tu e todo este espaço gritando em uníssono.
A noite prolonga-se na cidade incendiada,
da mesma forma quente que o teu cheiro se prolonga em mim,
da mesma maneira inquieta que os teus cabelos adornam a almofada
branca.
Quero a tua essência completa, o teu abraço perfeito,
a tua alma exposta, o teu toque mágico de manteiga derretida.
Preciso de te alimentar o ego, de te chamar hipócrita sem razões
plausíveis,
de te reconstruir, sem medo, o coração de pântano.
Reconheço em ti o Verão que me penetra,
o vento que me fere,
a razão que me provoca.
Tudo em mim é agreste quando te perco na bruma da manhã
e quando nada te devolve ao meu regaço
e a este quarto eterno de névoa.